A ciência moderna tende a reduzir o sofrimento mental ao biológico, buscando a explicação e a cura pela via do corpo. Para além dessa explicação ser rasa, apesar de apelativa por se parecer muito científica e palpável, promove o equívoco de entificar o sofrimento do falante. Entificar o sofrimento é, por exemplo, acreditar que a depressão existe enquanto coisa no cérebro; que a ansiedade tem vida própria e decide aparecer e incomodar alguém sem razão; que a hiperatividade é um desequilíbrio de neurotransmissores de causa genética que agita e desconcentra o aluno; etc.
Ao se conceber o sofrimento como corporal e desarticulado do sujeito, o tratamento não contempla o próprio sujeito. E se o sujeito já é à partida desconhecido para si mesmo, a crise epistemológica do campo da saúde mental aumenta ainda mais esse desconhecimento ao excluí-lo da equação.
A psicanálise estrutural propõe que a causa do sofrimento é a linguagem. É da estrutura da linguagem que sofremos. O sintoma é aquilo que aparece no lugar de um discurso que ainda não pôde ser falado, nas palavras que ainda não puderam ser ditas. É a linguagem que fere e é a linguagem que cura. É a linguagem que aliena e é a linguagem que liberta. A clínica psicanalítica é o tratamento que promove uma forma outra de estar na linguagem.
Diogo Ventura