No seminário 19 do seu ensino, Lacan pornuncia-se quanto à trajetória da experiência analítica dizendo: " Trata-se, na psicanálise, de elevar a impotência (aquela que explica a fantasia) à impossibilidade lógica (aquela que encarna o real)."
Demandar é apelar ao Outro e ao semelhante por amor, entendimento, reconhecimento, presença. Um pedido que se clama e re-clama na esperança de que seja atendido. É pela via amorosa que o humano tenta suturar a falta que o constitui. Uma busca imaginária que desliza de objeto em objeto, na esperança de que se encontre o tal que torne possível alcançar a completude. Busca que mantém o sujeito refém de uma impotência subjetiva. Porque apostar na demanda é insistir inadvertidamente na possibilidade da união total e da fusão perfeita com um outro radicalmente diferente e igualmente furado. Porque viver no campo da demanda é ignorar a verdade do desejo, cujo objeto é de impossível apreensão. Insistir e permanecer na demanda é a vã tentativa de positivar o desejo que é, por estrutura, negativo, pura falta. Tal insistência, sintoma para a psicanálise, é a consequência sofrida da falta que a falta faz.
Passar por análise é experimentar esse vazio estrutural e integrar a vacuidade das tentativas de alcançar a promessa do amor que a paixão pela ignorância sustenta. Experiência analítica que possibilita a extração de um objeto de desejo retificado, objeto-causa, produtor de uma mais-valia sublimatória que impulsiona o sujeito para a criação e relação com o mundo advertidas e esclarecidas quanto à impossibilidade Real.
Diogo Ventura