Por mais que se possam desenvolver nosografias com toda a minúcia estatística para descrever e classificar o campo psicopatológico, sempre se correrá atrás de modalidades de sofrimento que, do ponto de vista do fenómeno, permanecerão em constante mutação ao longo das épocas e das sociedades. E o próprio carácter mutável das formas de sofrer aponta para o facto de que não se sofre de doenças externas que acometem o sujeito, não são mal-funcionamentos mentais ou divergências biológicas e neuronais. O sofrimento é produto da história de um sujeito que é constituido pela linguagem e inserido na cultura e no laço social.
Do ponto de vista psicanalítico, o sofrimento é uma resposta singular, uma invenção inconsciente com uma função: resolver a angústia inerente à condição humana.
Essa angústia advém do facto de sermos constituídos pela linguagem, marcados pela falta a partir do (des)encontro na relação com o Outro. Nunca dizemos exatamente o que queremos. Nunca somos plenamente compreendidos. Nunca encontramos uma complementaridade perfeita nas relações. A psicanálise chama a esse impossível estrutural de castração. Enquanto ética e práxis, a psicanálise é afirmadora da castração.
É precisamente porque esse impossível sempre se apresenta na forma insuportável de angústia, que o sujeito produz formas singulares e sintomáticas na tentativade de a evitar e na esperança de a resolver. Ansiedades, inibições, relações tóxicas, compulsões, isolamento, dificuldades de socialização, fobias, delinquência, violência, depressão, burnout, hiperatividades e desatenções. A lista continua, mas sempre versa sobre a mesma coisa: uma indisposição existencial devido ao recalque e à denegação da castração, pois a angústia que ela veicula é insuportável.
A psicanálise não promete uma vida sem o sofrimento inerente à existência, pois ela opera um tratamento do incurável. A sua clínica não é técnica de administração de sintomas. É uma ética que propõe algo mais exigente e dificil, mas mais libertador: a possibilidade do sujeito desenvolver a capacidade de afirmar a castração, sua e do Outro. Se conseguir consentir e bem-dizer a sua condição castrada, o sujeito ficará cada vez menos capturado pelos intentos de completude na relação com os outros, cada vez menos objeto do enigmático desejo do Outro, cada vez menos mais liberto para viver como sujeito desejante. Continuará castrado, mas não paralisado. Continuará faltante mas, precisamente por isso, também desejante. Implicado em sua falta, e por ela não paralisado, poderá desejar e viver com um pouco mais de liberdade.
Diogo Ventura