Se aquilo que se busca através do amor é a completude, então convém que ele fracasse. Se é bem sucedido, então alguém estará amarrado pela relação.
O "felizes para sempre", a "a alma gémea" e a "relação perfeita" são fantasias de um reino imaginário. Engodos que tentam suplantar uma falta incontornável, estrutural. Quanto mais insuportável é a falta para o sujeito, mais o amor é convocado ao impossível de a suprimir, tornando o amar sintomático e sofrido.
Recorrer ao amor para curar o incurável, é o que faz com que as relações amorosas se organizem como um nó. Um nó que amarra devido à sôfrega busca de garantias, na possessividade ciumenta, ou na dependência angustiante. Nó que estrangula com exigências de devoção absoluta e de presença constante. Um nó emaranhado por sujeitos que teimam em se tornar um só, como solução para a angústia.
É a partir de uma relação de reconhecimento e intimidade com a própria falta que o amor se pode organizar como um laço. Um laço de presença e permanência de sujeitos separados que se desejam próximos, mantendo preservadas as suas subjetividades. Um laço de complementaridade, em que amar é apostar e investir reciprocamente nas singularidades desejantes.
O tratamento analítico pode produzir a capacidade para consentir a falta e tolerar o impossível do amor sem recorrer à fantasia. Para que assim, amar se torne um desejo de presença e permanência com um outro reconhecido em sua diferença. E então, a partir da queda da fantasia, as exigências e os intentos de amor-perfeito podem dar lugar à possibilidade de se estar de uma forma mais pacífica e arejada no amor.
Diogo Ventura