Zdzisław Beksiński
Para a psicanálise, o grande Outro é a estrutura de linguagem que captura e escraviza o falante. Quando se defende a legalização de terapias de conversão sexual, aí opera o grande Outro do Ideal da heterossexualidade. Quando se declara guerra a um país ou a destruição de uma civilização inteira, aí opera o grande Outro da supremacia e do progresso. Quando se condena alguém ao inferno pelo seus pecados, aí se revela o grande Outro do tribunal divino. Quando gritam e se insultam os governantes das nações, aí desfila o grande Outro das paixões partidárias. Quando vives aterrorizada por amar alguém violento, aí está o grande Outro do sacramento matrimonial. Quando cuidas de todos à tua volta e nunca cuidas de ti, aí encontras o grande Outro da bondade sacrificial. Quando um adolescente se odeia pela imagem que vê no espelho, aí oprime o grande Outro do valor da beleza. Quando uma criança se deprime e apaga a sua vivacidade, eis o grande Outro da obediência e do bom filho. Quando se busca o bem ou quando se busca o mal, aí está o grande Outro. Em última análise, quando se supõe haver o bem e o mal e supomos que estamos de um lado em oposição ao outro lado, aí incide o grande Outro.
O grande Outro está por toda a parte. O grande Outro é a linguagem: são as palavras e os discursos nos quais os falantes crêem, aos quais aderem e se agarram como a verdade última. E assim se sofre...
O grande Outro está tanto mais presente, quanto menor for a presença do sujeito. A psicanálise é o tratamento que visa inverter essa lógica. Barrar o grande Outro em sua incidência patogénica no falante.
Diogo Ventura