Se o discurso psicanalítico é necessário e pertinente, é porque há uma configuração subjetiva produzida pela modernidade científica, representada pelo tão conhecido slogan cartesiano "penso logo existo", que condiciona a existência a um cogito hipervalorizado que aspira ao protagonismo triunfante do Eu. Tal pretensão é, na reforma do entendimento proposto por Jacques Lacan, um equívoco que os psicanalistas não podem deixar de considerar, uma vez que o tratamento analítico opera sobre um sujeito que escapa ao domínio de um Eu plenamente consciente de si e autónomo em seu ser e agir.
Esta equivalência entre sujeito, Eu e agente (quiasma da agência) não se confirma na experiência analítica, a qual pretende deixar evidente o sujeito dividido e exposta a disjunção entre o saber e a verdade.
A teoria lacaniana tem atrelada ao conceito de sujeito a teoria linguistérica: fala-se para tentar ser, tentar capturar o sujeito no sentido fechado e último, como solução da angústia da indefinição e do não-saber. É pela via da associação livre que se experimenta a falha da estrutura, mostrando ao falante que:
• as "representações de si" do campo imaginário, são significados frágeis que facilmente cessam de se escrever (inconsistência imaginária);
• que a bateria de significantes permite uma combinatória infinita e incapaz de extinguir o campo da dúvida, denotando que não há o significante que promova o saber total e que tal tentativa não cessa de se escrever (incompletude simbólica);
• o sujeito é constituído por um furo, a partir do encontro traumático com o Outro radicalmente diferente que faz da completude um impossível que não cessa de não se escrever (impossibilidade lógica).
O sujeito da ciência é o resto que a própria ciência não consegue explicar com as suas produções de sentido e sistemas metodológicos. É desse sujeito que fica de fora (foracluido, ou talvez denegado seja um termo mais adequado) que a psicanálise se ocupa e que uma análise quer produzir. Por isso o analista não escuta o sentido ou as explicações que o analisante traz (que são efeito ou ecos dos discursos do mestre), mas o que escapa ao sentido, os furos da explicação, evidenciando o limite da ciência que o sujeito tem de si.
Freud já havia apontado para o facto de que o Eu não é senhor em sua própria casa. Lacan radicaliza essa descoberta ao situar o sujeito como aquilo que se constitui a partir da entrada no campo da linguagem. O sujeito não pre-existe aos significantes que o representam, mas surge precisamente como efeito e tentativa contínua de por eles se fazer representar.
Se, com Freud, visualizamos um inconsciente profundo, onde estão guardados conteúdos recalcados que uma análise tenta encontrar (o que aponta para um sujeito entificado e soterrado nos escombros de uma memória esquecida), Lacan propõe outra ontologia, numa outra topologia para o sujeito. A figura topológica moebiana de que ele se serve é desprovida de profundidade, é bi-dimensional, o que aponta para um sujeito como superfície, superfície discursiva. O inconsciente é o avesso de uma superfície discursiva, um inconsciente-enunciação que se mantém em relação de continuidade com um consciente-enunciado que o ignora. É no encontro com esse avesso que o sujeito emerge como efeito da divisão significante. Esse repetitivo encontro tem efeitos de verdade. Se a verdade está em relação de disjunção com o saber, a análise pretende promover a revolução epistemológica de os juntar. A verdade está na causa do dizer, da enunciação, e aponta para a falta, para o objeto a, causa do desejo. Juntar a verdade ao saber é agregar ao saber a sua condição ignorante, seu furo, sua falta. A figura moebiana aponta para lógicas discursivas e posições subjetivas na relação do falante com o discurso.
A análise não pretende uma produção epistemológica, mas uma revolução epistemológica. Não se trata de construir um novo saber, mas de construir um outro tipo de relação com o saber, que leva em consideração a verdade do sujeito. A verdade não é falada, a verdade fala. A verdade não é ôntica, mas ética. Não é apreensível pelo saber/conhecimento, mas se faz sempre presente, como insabível, como objeto perdido, como causador e causação do desejo.
A análise, e a verdade que ela veicula, pretende promover o nascimento de um sujeito que não é um ente, não tem substância nem essência. Sujeito que nasce ao incorporar a sua condição irrevogável de falta-a-ser na sua tentativa de ser pela via da aposta no campo da linguagem e no Outro fiador.
Diogo Ventura